01/10/2011

Phone Story

Desenvolvedor: Paolo Pedercini
Plataformas: Android / iPhone
Data de lançamento: 2011
Gênero: Político
Duração: Alguns minutos

Site do jogo

O custo oculto da tecnologia

Phone Story é uma obra interativa que mostra os custos humanos da indústria de eletrônicos como celulares, computadores e videogames. É um jogo que critica sua própria plataforma. Segundo o autor, o objetivo é provocar uma reflexão crítica sobre os efeitos sociais da produção do iPhone, por exemplo. É um jogo pago (custa R$ 1,82), em que 70% do dinheiro vai para organizações que lutam contra os males expostos no jogo, e o resto paga a divulgação. O jogador tem a oportunidade de conhecer os horrores por trás da produção da tecnologia que ele está consumindo e colaborar com pessoas que se opõem a este sistema de produção e consumo. Parece bastante contraditório pagar por um aplicativo cuja mensagem pode ser resumida por algo como: "O modo de produção da tecnologia que você está usando está devastando o mundo".

Uma curiosidade: o jogo foi banido do iTunes pouco depois de ter sido lançado.

Phone Story está dividido em quatro partes, cada uma é um mini-game tratando de um assunto relacionado a um impacto do iPhone: extração de coltan no Congo; condições de trabalho na China; lixo eletrônico no Paquistão e consumismo no Ocidente. Cada situação apresentada no jogo é apresentada com alguns detalhes a mais no site do jogo. O criador do jogo providenciou uma série de links para que o leitor se aprofunde em cada questão, e até mesmo sugere soluções políticas numa seção chamada "o que fazer", demonstrando que seu ideal é gerar mobilização.

Vou falar um pouco sobre cada uma dessas questões.

1. Para produzir celulares, computadores, videogames e outros produtos eletrônicos, é preciso um minério chamado coltan. A maior parte do suprimento de coltan está no Congo, uma região devastada pela pior guerra civil da história, em que o estupro é uma arma comum. O resultado é que entre os mineiros que extraem coltan existem muitos prisioneiros de guerra, incluindo crianças, que estão sendo transformados em escravos. A solução proposta é a criação de um sistema de certificação internacional que garanta que os minérios sendo usados não venham de áreas de conflito. Isso provavelmente aumentaria os custos dos produtos eletrônicos, mas o pior é que este mesmo tipo de "solução" foi adotada em relação aos diamantes de Sierra Leone. A verdade é que os conflitos parecem estar apenas mudando de lugar e o problema maior não está sendo resolvido. Não é somente um problema diplomático. Enquanto nós nos revoltamos contra o imposto sobre produtos importados, pessoas estão sendo violentadas no processo de produção desses mesmos produtos.

2. A maioria dos produtos eletrônicos que consumimos são montados na China, onde a taxa de suicídio de empregados é imensa. Tanto que as empresas chegam a instalar redes anti-suicídio em seus prédios. Isso mesmo, são redes para segurar empregados que tentem pular do terraço. Infelizmente, tendemos a pensar que a causa desses suicídios esteja somente nas péssimas condições de trabalho. Por isso, a solução proposta é a luta pelos diretos dos trabalhadores: melhores salários, redução do tempo de trabalho, treinamento de funcionários e adoção de programas de responsabilidade social. Novamente, isso é reduzir um problema muito maior a algo meramente prático ou democrático. Como no exemplo anterior, esta solução também implicaria no aumento do preço desses produtos, por mais que digamos que maior parte desse dinheiro vai somente para o lucro das empresas. Mas a questão principal é que a cultura que criou essas condições não está sendo criticada.

3. As estratégias para aumentar o consumo incluem a criação de desejos de consumo por meio de publicidade agressiva e obsolescência programada. Isto significa que os produtos são feitos para durar pouco tempo, para serem substituídos por versões "melhores" e "mais avançadas" cada vez mais rápido. Nós sentimos uma necessidade quase incontrolável de obter as versões mais atuais porque não fazê-lo pode significar exclusão de certos círculos sociais, por mais que você não sinta isso. É uma ação irrefletida. Você simplesmente precisa daquilo, como uma criança precisa de um brinquedo que todos os colegas têm. Você mente para si mesmo dizendo que é somente pela praticidade, ou que seu trabalho exige, ou qualquer outra desculpa deste tipo. Mas encare a verdade, você foi fisgado, porque eles conhecem seu ponto fraco. Não importa o quão consciente você acha que é, somos todos suscetíveis à influência de desejos instigados pela cultura de consumo. E a solução proposta também é inviável tanto economicamente quanto culturalmente: o consumo consciente. Mesmo os maiores críticos do consumismo não conseguem nada além de uma política de reciclagem, ou seja, de aumentar o tempo de vida útil de um produto. Isto só poderia ser uma solução se as pessoas realmente fossem capazes de fazer escolhas responsáveis. Mas se elas fossem, não faria sentido instigar desejos. Somos escravos da cobiça porque não aprendemos a ter discernimento. O fato é que estamos falando de subjetividade, e a subjetividade não está sendo afetada por nenhum movimento social. As pessoas não estão tomando consciência, estão no máximo mudando sua racionalidade sob o efeito de uma ameaça aos próprios desejos. Realizar os desejos de consumo depende da eficiência e da sustentabilidade do sistema de produção e consumo. Talvez você não perceba qual o problema aqui, mas eu acho irônico que estejamos criando uma moda anti-consumista, enquanto continuamos colocando nossa confiança num design mais verde ou mais colaborativo. Só universitários são ingênuos o suficiente para acreditar nessas coisas.

4. Para terminar, quando você finalmente se cansa do seu iPhone e decide jogá-lo fora, ele será desmontado para aproveitamento de componentes em algum país subdesenvolvido, como o Paquistão. Produzimos onze mil toneladas de lixo eletrônico por ano, e a quantidade tende a crescer muito. A desmontagem improvisada desse material rende dinheiro para algumas pessoas pobres, mas contamina o meio ambiente. O ideal seria que as próprias empresas assumissem a responsabilidade de reciclar esse lixo, ou se livrar dele de modo ecológico. Mas o mesmo argumento se aplica aqui. Não vou me repetir. Basta dizer que todos esses problemas surgiram numa velocidade impressionante. Tendemos as nos concentrar somente neles, como se resolvê-los resolvesse tudo, mas não percebemos que novos problemas, provavelmente piores, estão sendo engendrados a cada inovação técnica.

O resultado é que estamos comprando escravidão. Qual é o preço real que pagamos pelo que consumimos?

Precisamos repensar seriamente a ética da indústria de eletrônicos...


Eu não estou sendo pessimista. Eu gostaria de estar sendo pessimista. Mas se alguém consegue ver uma perspectiva mais agradável para tudo isso, eu gostaria de saber qual é.

4 comentários:

Anônimo disse...

Um dos seus melhores textos Janus, parabéns. Tenho que te dizer que vc é um excelente articulista, deveria tentar colaborar com alguma revista do gênero. Eu invejo sua capacidade de encontrar, ainda que com um grande intervalo entre uma e outra, focos de assunto pertinentes. Sou formado em jornalismo e ainda não me sinto seguro com relação á isso. O que escrever em seguida sempre me assombrou.
Quanto ao jogo, eu acho triste que o próprio criador do jogo, por melhor que sejam suas intenções, não consiga quebrar esse ciclo torturante, afinal ele está usando o mal no mal _ um aplicativo, um produto cultural que está passivo do desgaste e do desinteresse crescente, que será vítima da banalização ou do esquecimento _ que também é parte do processo degenerativo que estamos vivendo. Acredito pessoalmente, que estamos vivendo uma crise existencial global. O dificil é afirmar se as bases disso são materiais ou se o material é um reflexo dos níveis psíquicos dessa crise.

Enfim, ótimo texto. Continue assim.

Rafael

Janos disse...

Valeu pelo incentivo. Eu colaboro com o http://www.gamecultura.com.br e com o http://gamereporter.uol.com.br. Se tiver uma sugestão para publicação, pode dizer.

Você entendeu a questão da indústria cultural dos games. Isso é muito bom. O termo "crise existencial global" pode não ser preciso, mas é algo nesse sentido que está acontecendo. Provavelmente, as bases são tanto materiais quanto subjetivas. A ação é um reflexo das crenças e a ideologia é reflexo das condições de reprodução material. Assim, há alguma relação entre a base material da produção de eletrônicos e a "crise ética" da produção cultural, por exemplo. Este é um bom assunto para mais tarde.

Abraços

Anônimo disse...

Hey Janus

Por conta de alguns desentendimentos na diagramação do texto, minha matéria sobre games indie não vai sair nessa edição da Farrazine, a de número 24. Vai ser adiada até a edição 25, que ainda não tem data marcada. Isso não impede, contudo, que vc leia a Farra desse mês. se vc me passar algum contato seu, talvez eu possa te enviar meu texto.

Rafael

Janos disse...

Olá Rafael,

Veja minhas informações de contato aqui: https://sites.google.com/site/janosbirozero/Antizero/contato