01/07/2011

Entrevista com Nicolau Chaud (Calunio)


Recentemente descobri, por uma coincidência incrível, que o criador de Beautiful Escape: Dungeoneer, e Marvel Brothel é da mesma cidade que eu. Estes dois jogos feitos no RPG Maker ficaram internacionalmente conhecidos. Não apenas por causa da qualidade, mas também porque levantam discussões devido ao enredo polêmico. No primeiro, o jogador interpreta um rapaz cujo hobby é ganhar a confiança de pessoas na rua e então convidá-las para sua casa, onde as prende na sua masmorra particular e as tortura física e psicologicamente, na tentativa de destruir sua sanidade, para então lançar o vídeo na internet e conseguir um bom review na sua comunidade virtual. No segundo, o professor Xavier dos X-Men decide se tornar um cafetão para unir mutantes e humanos através do sexo. O jogo é um simulador de bordel com os personagens originais dos quadrinhos. A Marvel mandou que o jogo fosse tirado do ar, como o criador comenta no seu blog, e isso virou notícia inclusive no site Play This Thing. Ambos possuem uma linguagem bastante sofisticada, não é mero besteirol adolescente. Quero dizer que apesar dos temas parecerem estranhos, os diálogos de ambos são bastante trabalhados, e não há nenhum conteúdo realmente pornográfico. Na minha opinião, as crenças que o autor expressa é que são complicadas, pois refletem o "lado obscuro" da mentalidade moderna (ou pós-moderna). Eu conversei com o autor por e-mail, e ele concordou em me ceder esta entrevista:

1. Por que você decidiu fazer jogos? 

É uma vontade que sempre tive. Eu fazia jogos desde muito pequeno. Quando meu acesso a videogame ainda era pouco, eu fazia jogos de papel, cortava os personagens, desenhava os cenários. Quando conheci RPG, comecei a fazer RPGs (de mesa). Ainda muito novo (uns 13 anos) descobri a linguagem de programação Delphi, e fazia uns jogos bem tosquinhos. Foi uma evolução natural até o ponto de fazer jogos mais trabalhados e poder divulgá-los na internet. 

2. Um jogo pode ser uma obra de arte? Um criador de jogos pode ser considerado um artista? O que seria preciso para isso? 

É difícil dar uma resposta muito precisa a isso sem cair na discussão chata de "o que é arte?". Mas tendo a dizer que sim, a começar pelo fato de que um jogo engloba muitas coisas que geralmente podem ser consideradas arte (música, imagens, história). Acho que jogos ainda dão um passo adianta por incluírem o fator interatividade/jogabilidade. Eu acho que a "experiência" de se jogar um jogo é bem mais intensa do que a "experiência" de observar uma tela, ou ouvir uma música. Acredito que um criador de jogos pode ser considerado um artista, sim. É claro que o que eu falei dá um pouco a entender que todo jogo é arte, mas existe uma certa secção nos jogos independentes daquilo que são considerados "jogos artísticos"... que são basicamente jogos que fogem da receita do "jogo bonito e viciante" e tentam fazer algo que expressam ideias mais individuais, conceitos mais peculiares, e buscam provocar sensações nos jogadores diferentes de "que divertido!". Acho que se um criador consegue isso com um de seus jogos, ele pode ser considerado um artista, sim. 

3. Você acha que os jogos podem ser tão profundos quanto outros meios? Podem fazer as pessoas repensarem a realidade, por exemplo? 

Sem dúvida. Jogos têm trama, têm personagens, têm diálogos. Mesmo alguns jogos sem texto algum podem ter um impacto estranho em nós, como o intrigante Passage. Infelizmente a grande maioria das pessoas desligam o "módulo da seriedade" no cérebro quando vão jogar alguma coisa, e tendem a não buscar profundidade nenhuma naquilo que estão fazendo. Se o jogo tenta impor algum tipo de profundidade, a reação da maioria das pessoas é encarar aquilo como chatice e passar para um jogo mais simples e dinâmico. No meio dos jogos independentes as pessoas têm a cabeça um pouco diferente, estão mais abertas a outros tipos de jogo, e inclusive têm um olhar analítico diferente sobre jogos mainstream. Um jogo pode carregar uma crítica social, pode provocar uma reflexão sobre assuntos humanos, pode inspirar as pessoas a fazerem e quererem coisas... desde que o jogador esteja aberto para isso. 

4. Você teve alguma experiência com o conhecimento técnico sobre design de jogos? Qual a sua visão sobre a indústria de jogos e os cursos de design de jogos? 

Não, nunca tive experiência com conhecimento técnico algum. Minha experiência com jogos vem de jogá-los, e minha habilidade vem da prática. Muita gente me pergunta por que eu não trabalho com isso, ou pelo menos tento ganhar dinheiro com meus jogos. A verdade é que o fator “dinheiro” muda completamente a realidade da criação de jogos. No mundo dos jogos comerciais, existe uma demanda de mercado, e os jogos são feitos para atender a essa demanda. O público tem expectativas muito específicas sobre o que querem jogar, então os jogos comerciais tendem a seguir fórmulas bem definidas e inflexíveis. Ficam previsíveis e repetitivos, carregados de clichês. Muita gente no mundo dos criadores independentes ainda tenta seguir essas fórmulas, e acabam criando versões empobrecidas de jogos que já existem aos montes. Quem faz um curso de design de jogos e cai no mercado acaba tendo que atender às mesmas demandas... no Brasil, acredito que criadores de jogos façam predominantemente joguinhos para celular ou jogos simples em flash para sites como o Facebook. Ainda ficam longe do sonhos de participar da criação das “grandes produções”. Não acho um mercado atrativo. Prefiro a liberdade de fazer o que quiser, como quiser, quando quiser, e relegar minhas preocupações profissionais a outras coisas. 

5. Se um jogo pode expressar visões de mundo complexas, qual a importância da ética e das ciências humanas no design de jogos? 

Acho que os jogos devem seguir a mesma ética de outros meios de comunicação... que não é muita. Hoje em dia não existe muita restrição no que pode ser veiculado. Quando você assiste coisas como o desenho Uma Família da Pesada (Family Guy), a impressão é de que não existem mais barreiras a serem quebradas. Existe uma coisa chamada Internet que contém todo tipo de material, visões de mundo, de ideias, opiniões, imagens e conteúdos que podem ser acessados livremente por mais de um bilhão de pessoas. É difícil pensar em ética com tanta liberdade. Creio que por se tratar de uma atividade recreativa e optativa, os jogos devem ter liberdade de explorar o que quiserem. Existe um debate sobre o nível de influência que os jogos podem ter sobre o comportamento das pessoas, em especial sobre comportamentos agressivos. Mas este nível ainda é muito pequeno para ser preocupante, e não deve restringir o conteúdo de jogos. 

6. Você acha que jogos podem ser usados para educar? 

Sem dúvida. É inquestionável a vantagem de se usar meios mais atraentes e interativos na educação. Existem jogos educativos de todo o tipo, podem ser usados para treino de habilidades básicas, ensino de línguas, fins terapêuticos, reabilitação, etc. Atualmente a possibilidade de se usar jogos para fins que não sejam meramente recreativos já é mais aceita. Existem muitas pessoas que trabalham com isso. 

7. Você acha que alguns jogos transmitem ideias de modo subliminar? Deveríamos estar atentos a isso? 

Essa coisa de mensagem subliminar não existe muito. Aliás, existe, mas não tem esse efeito de “controle mental inconsciente” que se acredita popularmente. Não é algo com que devemos nos preocupar. 

8. Qual a relação entre cultura e jogos, em sua opinião? Gostaria de comentar sobre a relação entre violência, sexo e jogos? 

É uma pergunta complexa, não sei se consigo dar uma boa resposta em espaço tão curto. Jogos são manifestações culturais como quaisquer outros produtos de mídia. Seguem tendências semelhantes à música, ao cinema e à literatura. Da mesma forma que alguns tabus vêm sendo quebrados nesses meios, os limites de temas explorados em jogos também têm sumido. É uma tendência cultural, não dá para dizer se é bom ou ruim. Prefiro ver os jogos mais como manifestação de um processo do que causa dele. Ainda que a mídia sensacionalista goste de insistir nisso, jogos não deixam pessoas violentas, loucas ou alienadas. De fato, podem contribuir quando há predisposição para certos tipos de condutas, mas não é uma contribuição importante. Num mundo onde não existisse Counter Strike, um atirador maníaco poderia obter o mesmo tipo de inspiração de um filme, um livro, uma música, ou até de um caso contado por um amigo... mas não são essas coisas que o tornaram agressivo. Quanto ao sexo, não saberia como equacionar de forma particular no meio dessas coisas. Sexo ainda é tabu, é pouco abordado em jogos, ainda de forma pudica, e a mídia oriunda disso ainda fica escondida atrás da cortina. 

9. Qual a coisa mais importante que as pessoas deveriam pensar sobre jogos hoje? 

Acho que deveriam atribuir mais importância a jogos de forma geral. Pelo menos dar mais respeito. A maioria das pessoas ainda vê videogames como coisa de nerd antissocial infantilizado. É um pensamento ignorante e medíocre. No mundo dos jogos comerciais, as grandes produções se equiparam aos grandes filmes em termos de trabalho, equipe, orçamento, e qualidade do produto final. O esforço que existe por trás de um jogo como Final Fantasy XIII é impressionante. Em alguns países, as pessoas madrugam na porta das lojas para comprar jogos assim no dia do lançamento, e esses jogos realmente merecem esse tipo de importância. No mundo dos jogos independentes, onde há espaço para expressão individual e inovação, existe muita gente tentando colocar em seus jogos aquilo que eu chamaria, sim, de habilidade artística, e graças à Internet é possível mostrar isso a um público que ainda é pequeno, mas está disposto a abrir a cabeça a novas ideias, conceitos e experiências.

Nicolau Chaud, tem 29 anos e é de Goiânia/GO. Tem graduação e mestrado em Psicologia pela PUC-GO e atualmente trabalha como psicoterapeuta comportamental e professor em uma faculdade particular. Criar jogos é seu principal hobby, do qual tira muita satisfação, e faz com prazer!

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