06/03/2011

Anarco-gamers

Leaky World: a playable theory, de Paolo Pedercini
Haveria alguma tendência política entre os game designers independentes? Esta é uma pergunta que eu não tenho condições de responder sem uma pesquisa. Mas posso apontar algumas características que são visíveis no discurso de alguns deles:

1. A rejeição ao modelo de produção e distribuição regido pelo controle burocrático, publicitário e financeiro de grandes corporações. A ênfase recai sobre a autonomia do processo criativo, valorizando a “livre concorrência” entre todas as produções.

2. A estética minimalista ou a “pixel art”, que em conjunto com a valorização dos games com curta duração, poucos recursos, feitos em ferramentas livres e por pequenos e compromissados grupos de colaboradores parece significar o equivalente político do retorno aos modos de produção mais simples e comunitários. Além disso, há uma identificação ainda que indireta com a cultura hacker, que por sua vez está relacionada com a chamada "tecno-política" e tem alguma relação com a anarquia.

3. Aparentemente, os game designers independentes também podem se subdividir entre aqueles mais radicais e os mais moderados, os mais socialistas e os mais individualistas, os que rejeitam a religião, a tradição e os padrões estabelecidos pela sociedade, e aqueles que buscam um resgate ou a defesa de valores antigos. Alguns são abertamente a favor do crescimento da indústria de software de entretenimento, buscando a convivência pacífica ou até mesmo um lugar dentro dela. Outros são abertamente contra essa indústria, e preferem dizer que jogos não são entretenimento, mas sim arte. A indústria de jogos deveria ser destruída, e as pessoas voltariam a criar jogos por paixão e não por dinheiro.

Embora todo movimento desse tipo envolva uma critica à cultura vigente, essas características podem ser assimiladas pela cultura global, e alguns esperam que seja. Em alguns casos os jogos apresentam um esforço para realizar uma crítica social mais apurada. Outras vezes, reproduzem discursos que estão ajustados à cultura pós-moderna, e que são supostamente neutros, apenas constatando a realidade presente, mas de algum modo também justificando-a e naturalizando-a.

A cultura da internet, sendo uma cultura de redes, valoriza as interações individuais livres, e logo a questão principal é a conexão entre as pessoas. Isso nos leva ao Leakyworld, um jogo da Molleindustria sobre o Wikileaks. Este também é considerado pelo autor como “uma teoria jogável”, baseado no artigo de Julian Assange, “Conspiracy as Governance”. O jogo realmente traduz em linguagem interativa o que Assange descreve como uma conspiração global para impedir a circulação de certas informações cruciais para a mudança social. As manchetes que “vazam” no jogo são reais e estão geograficamente relacionadas com o ponto de origem no mapa. Ao clicar nelas o jogo entra em pausa e abre-se uma nova janela no navegador para a notícia.

O mais interessante dessa vez é que não apenas o artigo está disponível na íntegra logo abaixo da tela do jogo, como o criador do jogo, Paolo Pedercini, também faz algumas críticas muito interessantes ao artigo. Ele diz que é um subproduto da ideia esquerdista de que a consciência de classes é alcançada por meio do esclarecimento, que valorizaria demais os argumentos racionais, como se a mudança social dependesse somente de revelar a verdade sobre as estruturas injustas para as massas ignorantes, e a resistência emergisse espontaneamente quando o mal é revelado. O que Pedercini acredita é que isso ignora o poder das forças irracionais que não estão sob controle da sociedade, mas antes a dirigem, uma vez que as pessoas escolhem acreditar em mentiras agradáveis. Isto está relacionado com o assunto de um documentário muito interessante: Century of the self.

Em segundo lugar, Pedercini critica também a perspectiva tecnocêntrica herdada da cultura hacker. Informação é poder, mas não é o único fator que sustenta o poder. Por outro lado, não é somente a falta de informação que impede a mudança social. Por último, Pedercini considera que Assange abstrai em demasia o conceito de poder autoritário, ignorando as tensões intra-capitalistas e o conflito de interesses corporativos.

Eu concordo com a crítica de Pedercini, embora não concorde com o que ele defende: a cultura de transparência como característica das modernas democracias. Não vejo muito potencial no Wikileaks, assim como não vi muito potencial nas manifestações no Egito. Ambos me parecem produtos da mesma cultura global democrática. Por isso não me espantei quando vi um post do Play This Thing perguntando por que é que ninguém fez um jogo sobre os eventos em Tahrir e a queda de Mubarak ainda. E então, alguns dias depois, apareceram resenhas sobre jogos como People Power, em que o objetivo é liderar um movimento de resistência civil, e é descrito como uma oportunidade de se juntar a uma comunidade de pessoas interessadas em mudança social. O mais interessante é que o jogo é pago. Se há mercado para esse tipo de produto, bem, vocês já podem imaginar o resto...

1 comentários:

TailsApnea disse...

"O mais interessante é que o jogo é pago. Se há mercado para esse tipo de produto, bem, vocês já podem imaginar o resto..."

É bem insano isso... kkkk