Necessary Games é o nome de um projeto fundado por Jordan Magnuson, fundador do TIG Source, e está voltado para o significado dos jogos de um ponto de vista artístico, inspirado pela visão de Chris Crawford. No site você pode encontrar resenhas, textos e jogos originais. Jordan criou um projeto chamado Game Trekking, em que ele irá criar jogos inspirados numa viagem que fará pelo sudoeste da Ásia (Vietnam, Laos, Camboja, Tailândia, Malásia, etc..). As doações para esse projeto já passam dos 5 mil dólares que ele esperava arrecadar.
Vou falar brevemente de dois jogos sobre a Coréia do Sul, onde Jordan vive: Loneliness e Freedom Brigde. Ambos são considerados pelo próprio criador como "not games" ou seja, não jogos. São minimalistas e rodam no navegador.
Em Loneliness, o jogador experimenta uma situação repetitiva e ininterrupta de rejeição, que vai tornando a perspectiva de mundo cada vez mais obscura, até que não haja mais futuro. No final, uma frase dá o sentido para isso: "Crianças e adolescentes na Coréia do Sul são as menos satisfeitas com suas vidas entre os 26 países membros da OECD. Muitas reportam a solidão como o principal fator". É interessante um jogo falando de solidão na Coréia do Sul, um dos lugares onde as pessoas mais jogam jogos eletrônicos. Na verdade, é muito mais do que isso, é um lugar onde o ato de jogar é levado mais a sério, e é realmente uma profissão. Choi Yeun Sung é provavelmente o jogador mais famoso de Seoul, seu status é de celebridade, e seu salário não é nada ruim. Para isso, Choi passa mais de 12 horas jogando por dia. Ele diz não ter outros passatempos, e pretende se aposentar quando estiver rico, o que na Coréia do Sul não é um sonho impossível. As pessoas literalmente vivem e morrem pelo jogo. Em 2005 um homem morreu de exaustão após passar 50 horas sem dormir e sem comer jogando Star Craft num Cyber-café da Coréia do Sul. Star Craft era o jogo mais jogado de lá. (fonte: http://www.time.com/time/world/article/0,8599,1620799,00.html)
Freedom Bridge é bastante semelhante. O jogador avança por arames farpados, deixando um rastro de sangue para trás, apenas para ser alvejado antes de cruzar a Ponte da Liberdade. Ao final do jogo, é apresentada uma foto da verdadeira Ponte da Liberdade, que é o nome da ponte que liga a Coréia do Sul com a Coréia do Norte, e é realmente impossível de cruzar. O jogo expressou a dor das famílias que estão separadas pelos dois regimes, e emocionou muitas pessoas.
Outros jogos feitos por Jordan que me chamaram a atenção:
Terrorist Killer, em que você deve matar os terroristas antes que eles se matem, explodindo a si mesmos e provavelmente matando outras pessoas. A questão é que os terroristas são muito parecidos com os outros cidadãos do Oriente Médio, e é muito difícil matá-los sem provocar a morte de alguns civis também. Se você deixa de matar um terrorista, você perde o jogo, mas o número de civis que você mata no processo é irrelevante. Logo, o jogador descobre que a única maneira de terminar o jogo é matando mais civis do que os terroristas matariam se explodissem...
Bunnies vs. Bunnies, que é um jogo de combate estratégico entre coelhinhos aparentemente inofensivos. O mais interessante é que as citações maquiavélicas que aparecem entre uma fase e outra, passam a se aplicar perfeitamente ao modelo de competição por território do jogo. De fato, o jogo é uma espécie de tratado sobre a guerra.
Num todo, o esforço de Jordan Magnuson parece estar sendo bem intencionado. Eu espero que coisas realmente boas possam surgir daí.
Num todo, o esforço de Jordan Magnuson parece estar sendo bem intencionado. Eu espero que coisas realmente boas possam surgir daí.

3 comentários:
Belíssimos jogos. O "loneliness" me tocou de uma maneira profunda. É bom e bonito ver que alguns gamers estão conseguindo criar a atmosfera e o espaço de arte de que os jogos precisam.
Minha única ressalva é em relação ao cuidado que se deve ter ao se fazer uma proposta como essa do Game Trekking. Meu medo é de se reproduzir narrativas sobre outros povos nos mesmos moldes que a antropologia já fez em um passado recente.
É sempre uma interpretação sobre um outro que não está ali para se expressar, então é um tipo de projeto que tem que ser levado de maneira muito cuidadosa.
É verdade. Talvez devêssemos pensar em aulas de ética, filosofia, sociologia, antropologia e outras áreas das humanas voltadas para criadores de jogos.
Ou talvez devêssemos pensar em aulas de programação e game design para filósofos, antropólogos, cientistas sociais, e estudiosos da linguagem.
No fundo, infelizmente, acho que a resistência ia ser a mesma dos dos lados.
Pode ter certeza que um dos meus projetos é entrar na academia e discutir isso enquanto professor. Mas sei a barra que vou enfrentar.
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