23/10/2010

Transformice

Desenvolvedor: Tigrounette
Plataformas: Web
Data de lançamento: 2010
Gênero: Puzzle/Plataforma
Duração: Indefinido

Jogue online (em português): http://transformice.com/br/

Um laboratório de experimentos sociais

É assim que poderíamos descrever Transformice. É um jogo multiplayer online onde cada jogador é um rato de laboratório de uma série de experimentos sociais disfarçados de jogos. A criadora, uma designer de jogos francesa, provavelmente não tinha isso mente, mas criou o ambiente perfeito para se fazer pesquisa sobre cooperação, por exemplo. Para entender essa minha opinião, você tem que entender o jogo.


O jogo separa os jogadores em grupos aleatoriamente. Todos os jogadores têm um objetivo comum: pegar um pedaço de queijo e voltar ao buraco. O queijo não acaba, por isso os jogadores não precisam competir por ele. Ainda assim, eles tentam competir para chegar primeiro, o que não dá nenhuma vantagem no jogo exceto fazer seu nome aparecer com destaque numa lista, mas a pontuação é a mesma para todos que pegam o queijo e voltam para o buraco. Chegar primeiro é como ser o primeiro a postar um comentário, só dá o status de "first" que essa geração adora, mas a maioria dos jogadores prezam tanto o ato de tentar chegar primeiro que, na pressa, acabam caindo e morrendo, perdendo a chance de pegar o queijo. A pressa parece ser a maior causa de morte em Transformice, ainda que o tempo para completar cada fase seja suficiente. 

Aliás, a pontuação é simbólica porque os pontos não mudam em nada o funcionamento jogo, eles só servem para adquirir o direito a usar um título embaixo do seu nome, ou comprar acessórios que seu rato veste, mas que servem unicamente como efeito estético. Também servem para poder salvar os fases que você cria. Os jogadores não percebem que o melhor para todos seria cooperar. Tanto quanto eu observei jogando, eles tendem visivelmente ao individualismo. O jogo está aos poucos se transformando numa rede social, onde você pode ter um perfil, amigos e grupos...

As fases são criadas pelos próprios jogadores, e aparecem aleatoriamente, por isso você sempre tem um desafio diferente. Em algumas fases é imprescindível cooperar, como no caso da clássica gangorra, em que os jogadores precisam se dividir em dois grupos para alcançar o queijo na extremidade da gangorra, sem que ela perca o equilíbrio. O que geralmente acontece é que os primeiros a pegar o queijo correm para o buraco sem esperar pelos outros, o que faz com que quase todos caiam e fiquem sem queijo. Em outras fases os ratos se jogam no vazio por pura impaciência, como se fossem ratos acuados. Em outras, onde os ratos tem que simplesmente entrar e sair de um corredor para pegar o queijo, se repete uma cena comum em terminais de ônibus lotados: empurra-empurra desnecessário. Os que já pegaram o queijo empurram os que ainda querem pegar, e vice-versa. É tragicômico. Em outras fases, os jogadores são divididos em pares ligados por um elástico, e novamente se percebe a impossibilidade de uma simples parceria para alcançar um objetivo comum. No chat do jogo, o que mais se lê nesses momentos são xingamentos e acusações aos parceiros. Em fases que se joga num labirinto no escuro, poucos são os que encontram a saída e contam aos outros.

Transformice também tem experimentos com a questão da autoridade e do poder. A cada fase o jogo escolhe um dos jogadores com maior pontuação para ser um xamã. O xamã pode criar itens e usar poderes para auxiliar os outros ratos a alcançar o queijo e voltar em segurança. Para garantir isso, ele mesmo só pode entrar no buraco depois que todos os outros tiverem entrado. Mas o que mais acontece é puro e simples abuso de poder. Os xamãs acham mais eficiente e divertido simplesmente matar os ratos, ainda que saibam que isso acarretará uma provável vingança, o que por sua vez gera um ciclo vicioso. Os jogadores que só entram para atrapalhar são chamados de "trolls", como no termo usado em fóruns de discussão. Alguns ratos se recusam a entrar no buraco só para atrapalhar o xamã. O xamã quase nunca é respeitado, e a culpa é sempre dele. A cobrança é tanta que até parece que aqueles pontos valem alguma coisa.

Em algumas fases há um tipo de competição. Dois jogadores jogam com xamãs, e geralmente vira uma guerra, em que os xamãs se esquecem de ajudar os ratos e preferem ficar brigando. Transformice revela de forma mais clara o que eu afirmei sobre o "We the Giants", nós competimos mesmo quando estamos do mesmo lado. Pode-se aprender muito sobre o estado mental do indivíduo urbano analisando os comportamentos dos jogadores de Transformice.

2 comentários:

TailsApnea disse...

Hehe legal que você achou interessante o game...

Henrique Magnani disse...

Logo que eu joguei esse jogo, adorei. Não cheguei a análisar muito detidamente o comportamento dos jogadores, mas confirmo várias de suas impressões, rememorando o jogo.
É um jogo bastante interessante, ao lidar com esse processo conflituoso de cooperação x competição. E é interessante ver que cada um se comporta de um jeito, cada um traça seus objetivos e tenta lidar em uma "arena" complexa.
Não sei quão transferível é a relação entre o que fazemos quando "atuamos" como jogador e em outros contextos. Aliás, essa é uma das minhas maiores curiosidades. Mas, de algum modo, acho que, sim, há algumas pistas que possam nos fazer pensar em algumas inter-relações (as quais, justamente, quero entender melhor).
O que gosto desse jogo é justamente a necessidade de lidar com esses conflitos... ou seja, explora o multi-player de um modo inteligente.