27/10/2010

Symphorophilia


Desenvolvedor: Tembac
Plataformas: Web
Data de lançamento: 2010
Gênero: Game art
Duração: Variável



Cultura auto-destrutiva

Simforofilia é um tipo de parafilia, uma perversão sexual definida pela excitação erótica decorrente da observação de um desastre, como um acidente de carro ou uma catástrofe natural. Esta é mais uma patologia propagada pela cultura que inventou o "Monster Truck" e a pirotecnia, mas essa pertubação pode estar presente na sociedade desde as corridas de bigas da Roma Antiga.


O jogo Symphorophilia faz uma relação entre a cultura gamer, as corridas de carro e a cultura consumista. O criador diz que a idéia surgiu depois de jogar "Burnout Paradise" por horas, e que o objetivo não é entreter o jogador. Temos um jogo de corrida bem simples, no estilo Atari, com um aparelho de televisão antigo logo abaixo, mostrando cenas reais de uma corrida. Quando você bate em algum obstáculo, o jogo vai mostrar uma cena real de batida. Isso por si nos faz pensar no quanto os acidentes fazem parte da diversão ao assistir uma corrida, já que ver as cenas de acidentes parece ser mais divertido que simplesmente jogar o jogo.

Mas há um elemento extra, uma estrela brilhante que altera a mecânica do jogo. A televisão ocupa a tela do jogo e mostra cenas psicodélicas do Ronald Mac Donalds. Durante este tempo, o jogador pode atropelar as pessoas e bater nos carros em seu caminho, e irá ganhar pontos por isso. A mensagem parece ser clara: consumimos violência como consumimos fast-food. Este consumo parece estar sendo estimulado por reforços e por uma alta permissividade. Só que ao invés de obesidade, podemos estar adquirindo psicopatologias.

Esta geração youtube fala muito mal da televisão sem perceber que estão aceitando uma "evolução" da televisão como uma parte importante de suas vidas. A ilusão de que estamos escolhendo o que queremos ver disfarça o fato de que as piores idéias continuam sendo assimiladas, dessa vez por auto-propagação. O vídeo-game certamente faz parte disso também. Nós quase nunca nos perguntamos porque sentimos tanto prazer em contemplar a destruição, ou até fazer parte dela. O fato é que estamos vivendo numa cultura auto-destrutiva, onde a taxa de sobrevivência das relações humanas saudáveis é quase zero. Nós aceitamos os pressupostos desta cultura muito facilmente, como se fossem nossas opiniões pessoais, e os propagamos por conta própria.

O carro é um símbolo dessa cultura. Quanto mais rápidas nossas soluções, menor a nossa paciência. O carro é esse objeto de metal se movendo a altas velocidades, e que graças à nossa impaciência mata centenas de milhares de pessoas por ano. É quase como se tivéssemos uma atração fatal por isso, ou não teríamos arquitetado um plano tão perfeito. Agora, o que está sendo assassinado não são apenas pessoas, mas sentimentos. É como uma represa que se rompe. A psicologia dessa era diz que se a destruição é iminente, então vamos curtir o momento, como o cowboy cavalgando a bomba: http://www.youtube.com/watch?v=ueuauKKjPZI

A possibilidade de que as pessoas pensem seriamente sobre isso parece cada vez mais remota. Assim como a possibilidade de se falar de uma verdadeira ética no design de jogos, ou em qualquer outra área.

1 comentários:

Henrique Magnani disse...

Muito boa a sugestão de jogo e muito interessante a análise!