Desenvolvedor: Peter Groeneweg
Plataformas: Web
Data de lançamento: 2010
Gênero: Game art
Duração: Alguns minutos
Jogue Agora: wethegiants.thegiftedintrovert.com
Sobre os ombros de gigantes?
Antes de ler esta resenha, pense na frase mais sábia que você teria para deixar para as futuras gerações, e então clique no link e jogue We the Giants. Se é que você vai ter a sorte de poder deixar sua frase lá. Depois disso, leia o resto da resenha.
Neste novo jogo de Peter Groeneweg, autor de 6 and a half, os jogadores são os gigantes da frase de Isaac Newton, "Se eu vi mais longe, foi porque eu estava sobre os ombros de gigantes". Esta idéia é transformada em mecânica de jogo. Cada jogador deixa para trás seu corpo e sua "sabedoria" como um degrau para que outros alcancem mais longe. Se os jogadores cooperarem entre si, poderão alcançar o objetivo, uma estrela lá no alto, subindo uns sobre os outros. Enquanto o jogador aprende os "rituais" dos gigantes, algumas frases aparecem:
"No dia-a-dia, a lei do sacrifício toma a forma de dever positivo" - James A. Froude
"Um homem deve ser sacrificado de vez em quando para prover para a próxima geração de homens" - Amy Lowell
"Neste mundo não é o que levamos, mas o que damos, que nos faz ricos" - Henry Ward Beecher
O jogador deve se sacrificar escrevendo uma frase que vai para o Twitter http://twitter.com/WeTheGiants/wethegiants. Até aqui tudo parece bem. Mas o interessante é como esta mecânica de cooperação, onde os jogadores deveriam se sacrificar em nome de um projeto coletivo, deixando alguma frase significativa para trás, revela algumas características da nossa cultura global.
Para começar, é comum que pessoas entrem apenas para atrapalhar o jogo, sacrificando-se de forma a não deixar espaço para que os outros prossigam, forçando o jogo a recuar até acabar o espaço, e depois disso não é mais possível se sacrificar, e a estrela ficará fora de alcance até que o servidor recomece o jogo do zero.
Em segundo lugar, as frases de "sabedoria" deixadas para trás são ridículas. É como se as pessoas não tivessem realmente nada de importante para dizer, e sentissem muito mais prazer em ofender umas às outras e falar coisas sem sentido. Quando alguém escreve alguma coisa que faz algum sentido, não é algo que realmente nos adiciona alguma coisa. Há frases que mostram como alguns jogadores interpretam o discurso do jogo, falando sobre o poder do indivíduo. Outros mostram que não queriam se sacrificar. Mas será que é possível deixar alguma sabedoria em 140 caracteres? Mais do que isso, será que uma frase, por mais interessante que seja, pode ajudar alguém a ver mais longe?
A questão é que os gigantes não estão realmente apoiados sobre a sabedoria um dos outros. Não importa o quão estúpidas sejam as frases, é o acúmulo de corpos que levará ao objetivo. Mesmo que entendamos esses corpos como metáforas para o conhecimento acumulado, o que apreendemos do comportamento dos jogadores é que eles raramente estão realmente interessados em cooperar uns com os outros, mas sim em usar uns aos outros para chegar mais longe. No vídeo que Peter colocou no youtube, http://www.youtube.com/watch?v=4sY7i_yTaqI, mostrando algumas sessões de jogo, podemos perceber que o interesse dos jogadores é chegar individualmente mais alto, independente do quanto isso auxilie o coletivo.
As frases mostram qual é a sabedoria pós-moderna: dicas sobre como economizar tempo no dia-a-dia. Não há espaço para sabedoria verdadeira, porque mesmo que esta aparecesse, seria uma pérola jogada aos porcos.
Podemos ainda nos perguntar: o que representa aquela estrela? Por si só, alcançar a estrela não representa necessariamente a vitória do esforço coletivo sobre o egoísmo individual, pois as pessoas podem cooperar por causas nobres e também para sua própria destruição. Poderíamos comparar a estrela com o objetivo de Newton, um campo unificado do conhecimento? Se for este o caso, o jogo demonstra que estamos muito longe de alcançar isso, e que estamos cada vez mais nos aprofundando numa cultura da futilidade.
Uma frase deixada por um jogador me chamou a atenção: "Num mundo de pessoas boas, os governantes também seriam bons. Mas seriam eles necessários?". Ela indica um pensamento que parece estar presente no discurso do jogo: Não precisamos de ninguém para nos dizer o que fazer, se cada um agir por si só podemos alcançar o maior dos objetivos. Essa tese humanista combina com um ideal que também está presente numa metáfora semelhante: A Torre de Babel. É esta a sensação ao ler as frases que os jogadores deixam: que estamos numa Torre de Babel, e não há comunicação real entre as pessoas.
Dessa forma, a imagem criada pela frase de Newton se transforma em outra coisa: se não podemos enxergar um palmo à frente do nosso nariz, é porque estamos soterrados nessa pilha caótica de "gigantes" autônomos. A razão voltou-se contra si mesma, e 'nós, o povo', acabamos os como os gigantes de We The Giants: competindo mesmo quando estamos do mesmo lado.
"No dia-a-dia, a lei do sacrifício toma a forma de dever positivo" - James A. Froude
"Um homem deve ser sacrificado de vez em quando para prover para a próxima geração de homens" - Amy Lowell
"Neste mundo não é o que levamos, mas o que damos, que nos faz ricos" - Henry Ward Beecher
O jogador deve se sacrificar escrevendo uma frase que vai para o Twitter http://twitter.com/WeTheGiants/wethegiants. Até aqui tudo parece bem. Mas o interessante é como esta mecânica de cooperação, onde os jogadores deveriam se sacrificar em nome de um projeto coletivo, deixando alguma frase significativa para trás, revela algumas características da nossa cultura global.
Para começar, é comum que pessoas entrem apenas para atrapalhar o jogo, sacrificando-se de forma a não deixar espaço para que os outros prossigam, forçando o jogo a recuar até acabar o espaço, e depois disso não é mais possível se sacrificar, e a estrela ficará fora de alcance até que o servidor recomece o jogo do zero.
Em segundo lugar, as frases de "sabedoria" deixadas para trás são ridículas. É como se as pessoas não tivessem realmente nada de importante para dizer, e sentissem muito mais prazer em ofender umas às outras e falar coisas sem sentido. Quando alguém escreve alguma coisa que faz algum sentido, não é algo que realmente nos adiciona alguma coisa. Há frases que mostram como alguns jogadores interpretam o discurso do jogo, falando sobre o poder do indivíduo. Outros mostram que não queriam se sacrificar. Mas será que é possível deixar alguma sabedoria em 140 caracteres? Mais do que isso, será que uma frase, por mais interessante que seja, pode ajudar alguém a ver mais longe?
A questão é que os gigantes não estão realmente apoiados sobre a sabedoria um dos outros. Não importa o quão estúpidas sejam as frases, é o acúmulo de corpos que levará ao objetivo. Mesmo que entendamos esses corpos como metáforas para o conhecimento acumulado, o que apreendemos do comportamento dos jogadores é que eles raramente estão realmente interessados em cooperar uns com os outros, mas sim em usar uns aos outros para chegar mais longe. No vídeo que Peter colocou no youtube, http://www.youtube.com/watch?v=4sY7i_yTaqI, mostrando algumas sessões de jogo, podemos perceber que o interesse dos jogadores é chegar individualmente mais alto, independente do quanto isso auxilie o coletivo.
As frases mostram qual é a sabedoria pós-moderna: dicas sobre como economizar tempo no dia-a-dia. Não há espaço para sabedoria verdadeira, porque mesmo que esta aparecesse, seria uma pérola jogada aos porcos.
Podemos ainda nos perguntar: o que representa aquela estrela? Por si só, alcançar a estrela não representa necessariamente a vitória do esforço coletivo sobre o egoísmo individual, pois as pessoas podem cooperar por causas nobres e também para sua própria destruição. Poderíamos comparar a estrela com o objetivo de Newton, um campo unificado do conhecimento? Se for este o caso, o jogo demonstra que estamos muito longe de alcançar isso, e que estamos cada vez mais nos aprofundando numa cultura da futilidade.
Uma frase deixada por um jogador me chamou a atenção: "Num mundo de pessoas boas, os governantes também seriam bons. Mas seriam eles necessários?". Ela indica um pensamento que parece estar presente no discurso do jogo: Não precisamos de ninguém para nos dizer o que fazer, se cada um agir por si só podemos alcançar o maior dos objetivos. Essa tese humanista combina com um ideal que também está presente numa metáfora semelhante: A Torre de Babel. É esta a sensação ao ler as frases que os jogadores deixam: que estamos numa Torre de Babel, e não há comunicação real entre as pessoas.
Dessa forma, a imagem criada pela frase de Newton se transforma em outra coisa: se não podemos enxergar um palmo à frente do nosso nariz, é porque estamos soterrados nessa pilha caótica de "gigantes" autônomos. A razão voltou-se contra si mesma, e 'nós, o povo', acabamos os como os gigantes de We The Giants: competindo mesmo quando estamos do mesmo lado.


1 comentários:
Me lembrou Transformice agora, aonde tem varios jogadores ratinhos tentando pegar um queijo... se os jogadores cooperarem seria bem mais facil todos pegaram o queijo, mas acontece isso mesmo que vc falou... alguns vem só pra atrapalhar, outros simplesmente usam os outros pra ir atras do queijo não importando o que aconteça com eles...
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