22/09/2010

Virtualidade

Pequeno comentário à entrevista com Renata Gomes no link: http://zebra5.wordpress.com/2010/09/02/entrevista-com-renata-gomes/

Na última resposta, a entrevistada parece reduzir as experiências presenciais a algo equivalente às experiências mediadas por computador, ao dizer que estas não são menos reais que as outras. Mas ela parece estar ignorando que a desconexão entre proximidade e presença faz parte de um processo de fragilização dos laços sociais. O surgimento da tele-presença mudou nossa forma de nos relacionarmos face-a-face. A interação entre pessoas já se encontra comprometida, porque vemos a ascensão da interação entre personagens, uma vez que a performance se tornou mais importante do que a autenticidade. Nós estamos gradualmente perdendo o discernimento do que é real. Na medida em que as relações artificiais ganham importância, as relações pessoais perdem caráter, se tornam também ficcionais, negociadas e compartilhadas.

O que seria essa nova dimensão da identidade e do afeto? O que eu acho é que não se adiciona uma nova dimensão ao afeto, mas na verdade há uma substituição, o que tende a despotenciar o capital afetivo. Parece que ainda não estamos atentos o suficiente para isso. A questão não pode se resumir a saber como lidar com identidades distribuídas, mas refletir sobre como isso está relacionado à crise de identidade, que pode estar levando à descaracterização da pessoa humana. Também não acho que devemos condenar os jogos, mas aplaudir o virtual como se fosse uma nova dimensão para o real, me parece ingênuo e precipitado. Os problemas que surgem daí são muito mais sérios do que se imagina, e não se pode dizer se poderão sequer ser superáveis se insistirmos em continuar seguindo esse processo da forma pouco reflexiva como se tem feito.

19 comentários:

Stella Ramos disse...

Caro Janos, reproduzo o comentário que postei no blog do grupo Zebra5, do qual faço parte:

Obrigado pelo comentário. Sinta-se convidado a sempre contribuir!
Este espaço tem como proposição justamente abordar os processos – dos mais diversos – relacionados à jogos de forma reflexiva, por meio das diferentes óticas dos entrevistados. Esperamos fomentar discussões acerca não só dos games, mas do uso do jogo em geral.
Apesar de não ser minha área de especialização, acredito que os games não obrigatoriamente desencorajam o contato presencial; penso inclusive que não se dissociam completamente do mundo real e sim, o compõem e enriquecem, e apenas em casos extremos representam um afastamento das redes sociais ( Fato, aliás, que pode ocorrer também com um jogador de RPG, caso não saiba diferenciar ficção e realidade).
Trabalho com adolescentes que são aficcionados por um determinado game ( Runescape, se não me engano). Trocam experiências sobre isso durante minhas aulas, e por vezes utilizo elementos que trazem para a elaboração de jogos. Neste caso, não há distanciamento da realidade ou da socialização, e sim enriquecimento.
Enfim, o debate está aberto. O que pensa, Renata?
Alberto Tembo– Zebra5

Alberto disse...

Caro Janos,
Obrigado pelo comentário. Sinta-se convidado a sempre contribuir!
Este espaço tem como proposição justamente abordar os processos – dos mais diversos – relacionados à jogos de forma reflexiva, por meio das diferentes óticas dos entrevistados. Esperamos fomentar discussões acerca não só dos games, mas do uso do jogo em geral.
Apesar de não ser minha área de especialização, acredito que os games não obrigatoriamente desencorajam o contato presencial; penso inclusive que não se dissociam completamente do mundo real e sim, o compõem e enriquecem, e apenas em casos extremos representam um afastamento das redes sociais ( Fato, aliás, que pode ocorrer também com um jogador de RPG, caso não saiba diferenciar ficção e realidade).
Trabalho com adolescentes que são aficcionados por um determinado game ( Runescape, se não me engano). Trocam experiências sobre isso durante minhas aulas, e por vezes utilizo elementos que trazem para a elaboração de jogos. Neste caso, não há distanciamento da realidade ou da socialização, e sim enriquecimento.
Enfim, o debate está aberto. O que pensa, Renata?
Alberto – Zebra5

Coletiva-mente disse...

No meu caso, como viciado em video-games, percebo que o que me atrai nos jogos virtuais é uma busca por vivências e experiências que dificilmente encontra-se na forma de cotidiano que estou inserido. Porém, com uma visão mais crítica sobre o assunto, eu percebo hoje que essas experiências são puramente artificiais e dada a atmosfera de sobrecarga de emoções e acontecimentos que geralmente esses jogos comerciais oferecem, pouco consigo aproveitar essas experiências como uma forma de compensação da vida urbana massante e fria que vivo (e creio que todos nós vivemos).
Logo, vejo que a experiência vitual dos jogos é totalmente "não-humana", o que tornaría uma pessoa aficcionada sem um senso crítico (grande parte da população brasileira, em parte, incluindo-me)despreparada para vivências reais e contatos essêncialmente humanos em sua vida.

Sinto que os jogos são vistos pelos consumidores como repositores de experiências emocionantes de vida. Porém, creio que elas também desabilitam o indivíduo a conviver e se inter-relacionar com os fenômenos e processos reais ao seu redor.

Creio que nesse sentido o jogo virtual comercial assuma um caráter destrutivo à capacidade do homem de interagir com o que aconteçe ao seu redor. Mas, ainda assim, é um das poucas drogas que podem oferecer experiências, mesmo que virtuais, para uma humanidade havida por emoções que lhe são, cada dia mais, negadas.

Meu ponto de vista. Gostaría de discutir melhor esse assunto.
Excelente blog.
Estarei acopanhando.

Janos disse...

Valeu pelo relato. Valeria a pena pensar no que nos levou a buscar experiências virtuais. Será a pobreza do mundo real, no sentido da carência de algo natural que deveria estar nele, mas não está? Ou o desejo por algo que não é possível neste mundo, no sentido da criação de algo a mais, algo artificial, a sensação de realização de um ideal, de um mundo que só poderia ser imaginário?

Vejo que muitas vezes a realidade do jogo não nega a realidade da vida cotidiana, mas a complementa e fortalece seu sentido. Em muitos jogos, reproduzimos exatamente a mesma mentalidade que somos obrigados a seguir na sociedade do trabalho. Aí o lúdico se torna instrumento para a domesticação.

Além disso, a lógica da proximidade virtual altera também nossa relação face-a-face. De forma que não nos relacionamos com pessoas, mas sim com mercadorias. Isso não é opinião própria, mas uma tese que não é minha. Nos relacionamos com aquilo que a pessoa pode nos oferecer, e não com ela enquanto pessoa humana, não com suas necessidades.

Temos que pensar também porque sentimos tanta vontade de viver experiências emocionantes, isto é, de vida ou morte. Acredito que é porque a civilização causa insensibilização. As experiências limite são a única coisa ainda capaz de nos fazer sentir alguma coisa. Crash, no limite: "Em Los Angeles ninguém te toca. Estamos sempre atrás do metal e do vidro. Acho que sentimos tanta falta desse toque, que batemos uns nos outros só para sentir alguma coisa."

Abraço e continue comentando

Janos disse...

Ver também: http://zebra5.wordpress.com/2010/09/02/entrevista-com-renata-gomes/#comments

Coletiva-mente disse...

Janos
Realmente concordo com o que respondeu. Você conseguiu organizar e elucidar melhor as idéias que tentei expressar segunda minhas próprias experiências com jogos virtuais.

Sobre a questão da possível procura nos jogos por um mundo idealizado que só existe na irrealidade, creio que isso realmente aconteça mas, pelo menos no meu caso, com o passar do tempo pude perceber a artificialidade que aquele mundo virtual me proporcionava e hoje, na minha opinião, não conheço nenhum jogo que estimule a livre escolha das ações e objetivos no mundo virtual tentando se aproximar de escolhas que poderiam ser tomadas em situações reais. A não ser, como vc mesmo disse, jogos que lhe dão um leque grande de possibilidades quase "reais", imitando a vida no jogo, mas que, ainda assim, limitam as escolhas do jogador ao conjunto de escolhas delimitadas que a cultura dominante global atual propaga.

Sobre a questão do vácuo social que creio que algumas pessoas tentam preencher com os jogos virtuais, concordo que seja efeito do modo de vida urbano atual. Mas me pergunto se, levando em conta a configuração moral e física dos ambientes urbanos brasileiros (ou até mesmo, de todo o Ocidente), haveria como existir alguma forma de preencher esse vazio sem promover uma "fuga" do mundo material ao que estamos sujeitos.

A pergunta que fica: Você consegue imaginar uma espécie de jogo virtual que ofereça um mundo não delimitado pelos valores da cultura em que vivemos? Afinal, busca-se no virtual o que não encontramos no real, porém, encontramos no virtual o mesmo mundo que vivemos no plano real maqueado de fantástico. Logo, o jogo, parece não preencher o vázio, mas re-afirmar o vázio. (para não dizer re-afirmar a cultura dominante)

Desculpe se pareço intransigente. Esse assunto me interessa e pouco espaço tenho para trabalhá-lo confrontando visões externas a mim.

Abraço

Janos disse...

Olá,

Você está indo muito bem. Continue nessa reflexão. Os jogos que dominam o mercado hoje são produtos da cultura que domina nosso espaço imaginário. Certamente essas coisas não podem preencher o vazio que sentimos, que é existencial. O que a cultura oferece são sensações de prazer que abafam a angústia. Mas ao fazer isso, possibilita que nós mergulhemos mais fundo ainda na racionalidade tecnomorfa.

Você assistiu o filme A origem? Há uma tese interessante nesse filme: Quanto mais mergulhamos no mundo mental, criado artificialmente, mais nós nos perdemos dentro dele, esquecendo quem somos e chegando ao ponto de que uma mãe não consiga mais reconhecer seu próprio filho. Isso aqui é uma tendência: http://www.sidneyrezende.com/noticia/76614+casal+coreano+deixa+filha+morrer+de+fome+para+jogar+second+life+em+lan+house.

Se você pensar bem a respeito, o filme não está falando exatamente de sonhos, mas de projeções mentais, de realidade virtual, onde há uma arquitetura, uma construção do imaginário. E a segunda tese é que aqueles que são capazes de construir mundos artificiais também são capazes de implantar idéias na nossa mente.

Você conhece os ARG, Alternate Reality Games? Eles têm o objetivo de apagar a distinção entre realidade e jogo.

Hoje você pode comprar um tênis virtual para seu avatar, pagando dinheiro real. Mas o dinheiro é precisamente aquilo que representa o valor virtual de todas as coisas.

O fato de que uma criança hoje conhece em detalhes o mundo fantástico em que se ambienta seu jogo favorito e as regras para ser bem sucedido nele, mas desconhece a topografia que a cerca e como ela deve se comportar e se inserir no seu próprio mundo, deveria ser sinal que há algo muito errado. O mundo que é próprio do sujeito não é mais o mundo a que ele pertence, mas o mundo que pertence a ele.

Para mim, não é que os jogos abrem um canal de comunicação mais efetivo com as crianças, mas sim que os outros canais estão perdendo sua força. Temos que imitar o real na fantasia ou a fantasia no real para poder nos comunicar.

"Toda fantasia vem de um ressentimento". O que há é a falência de um modo de relacionamento tradicional. Educadores podem falar sobre a necessidade de que adaptemos o conteúdo das aulas à linguagem dos games. Mas isso é uma imposição de uma cultura tecnológica, não uma opção. Somos obrigados a explorar novas opções porque estamos ficando gradativamente sem opções. O ensino está sendo precarizado na medida em que se submete aos imperativos da sociedade complexa, que impõe, por exemplo, um ritmo acelerado à vida, gerando cada vez mais impaciência.

O desenvolvimento tecnológico tomou um impulso incontrolável, e é ingênuo pensar que a educação poderá acompanhar esse movimento. As crianças se entediam cada vez mais rápido. O que avança é a cultura da futilidade.

Nenhuma fuga da realidade preenche o vazio. É a sensação de prazer que diminui a sensação de dor, mas a doença continua crescendo. O jogo não abrange a vida, mas a vida é que é reduzida a um jogo, ou melhor, o modo de perceber a vida se baseia no modo com que se percebe os jogos. Não estamos tentando fugir do mundo material, mas sim de nós mesmos.

Busca-se no virtual um outro significado para o real. Mas o fundo psicológico do desejo de ser outra pessoa é a auto-rejeição, não a rejeição ao mundo, mas sim a vontade de ser alguém segundo os critérios deste mundo.

Henrique Magnani disse...

Deixe-me dar alguns palpites aqui, mesmo que atrasado em toda a discussão.
Concordo com grande parte das palavras do Janos, principalmente em relação aos jogos digitais como fortíssimos commodities de nossa cultura que tem, de certa maneira, estimulado o "cansar-se rápido" e o exagero de estímulos, elementos muito convenientes se explorar quando o dinheiro precisa circular de modo cada vez mais acelerado e para isso novos gostos, cores, sabores, entre outros são dispostos na prateleira, com a falsa propaganda de que você está escolhendo entre algum deles.
Além disso, acho que esses "excessos" (de violência, propagado pela mídia; de sabores, cheiros, propagados pela indústria alimentícia; de 'felicidade' ou estados de espíritos desejáveis, propagados pela indústria farmacêutica, etc, etc) é que tem "dessensibilizado" nossos olhos e sentidos para muitas coisas. É um pouco o dilema da sociedade do espetáculo. Nesse sentido, a pornografia da internet, os jogos e outros elementos se situam como parte da causa e da consequência dessa dessensibilização.
O que mais me incomoda na postura da teórica, na verdade, é que me parece que o jogo poderia simular um fato histórico de maneira não-mediada, trazer uma imersão que se aproximaria mais do que qualquer coisa que temos hoje. E isso, para mim, é bastante complicado. Qualquer meio e modo de linguagem e interpretação é mediado. O jogo pode trazer e trará experiências diferentes, de fato, mas o grau de envolvimento só é maior porque nessa cultura atual ele faz mais sentido, e não porque é maior "per se". Muitas pessoas não tem um mínimo de paciência para jogar um jogo e certamente se envolvem muito mais com a leitura de um livro. Não existe como apagar a "mediação", por mais que sejam oferecidos recursos sonoros e visuais muito estimulantes. O jogo é sempre um recorte discursivo.
Mas acho interessante esse debate sobre virtualidade/realidade. Eu acho que o jogo é tão realidade quando relações face-a-face no sentido de que todas as interações com a linguagem envolvem interpretação e posições culturais definidas. Uma não substitui a outra, não supre a outra, pelo menos não de um modo que nós - conhecedores de uma realidade presencial - achemos adequado. Por isso acho que entender e estudar games é justamente central para não deixarmos que eles sejam agentes tão potentes na transformação das relações humanas nas quais acreditamos. Embora, do meu ponto de vista teórico, nenhuma seja mais "real" em um sentido metafísico ou transcedental.

Henrique Magnani disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Henrique Magnani disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Henrique Magnani disse...

meus textos foram duplicados... favor desconsiderar

Janos disse...

Magnani,

Obrigado pelo seu comentário, e nessa área você se expressa melhor que eu. Na questão da insensibilização, eu usei um pouco da análise do Bauman, quando este diz que os celulares nos ensinaram a estar fisicamente presentes num lugar sem estar mentalmente presentes. Eu parafrasearia a frase do filme Crash assim: "Nesta sociedade as pessoas não se encontram pessoalmente. Estamos sempre atrás de uma tela. Acho que sentimos tanta falta falta dessa presença, que batemos uns nos outros (ainda que virtualmente) só para sentir alguma coisa".

Acho que a teoria da imersão leva os teóricos a acreditarem que estão derrubando a mediação. Da mesma forma com que o avanço da cibernética faz os cientistas acreditarem que estão se aproximando de uma percepção mais apurada da realidade.

Realidade versus virtualidade é uma questão filosófica muito complexa. Podemos dizer que algo é "real" só porque "parece real", isto é, porque é indistinguível do "real"? Devemos aceitar a premissa que diz "assim é se lhe parece", isso é, negar a distinção entre aparência e essência? Me parece que quando os teóricos usam o termo "realidade", não se preocupam muito com a ambiguidade desse termo, e não o definem muito bem. Pois, em certo sentido, tudo é real, mas se usamos esse sentido, então o termo perde sua capacidade de apontar para uma distinção, comprometendo seu significado.

Henrique Magnani disse...

Entendo o seu ponto de vista. Você tem um aprofundamento nisso maior do que eu em sua formação em Filosofia. Mas aí acho que é uma questão de premissa. Se há um "real" conectado a uma verdade "transcendente", logo estamos falando de "parece ser" e "é". Ou seja, a noção de real das filosofias de correspondência.
Para mim, como Geertz aponta, cultura precede biologia nessa questão, já que tudo que podemos conceituar, interpretar e "experienciar" tem um filtro cultural. Sei que não é seu ponto de vista e respeito. Mas não sou adepto de uma verdade "transcedental", o que não deve levar a um relativismo, algo vazio e oportunista, comum em certos pós-modernos.
Nesse sentido, o espaço físico e o não físico (dos jogos) são desdobramentos do único real que podemos ter, filtrado pelos limites de nossa linguagem, história, identidade, cultura.

Janos disse...

Magnani,

A teoria da correspondência diz que a verdade está na relação entre uma proposição e um estado de coisas, por exemplo. Eu concordo com os cientistas sociais. Nosso esquema conceitual depende de nossa cultura. Logo, nossa interpretação e nossa percepção passam por esse "filtro cultural". Porém, não vejo como escapar de um relativismo cultural se este filtro for determinante, isso é, se não for possível fazer auto-crítica da nossa própria visão de mundo por meio de uma metalinguagem e do questionamento de pressupostos. Isso é diferente de afirmar que há critérios absolutos disponíveis para uma análise totalmente imparcial e neutra da realidade. Não há. Mas também não significa que possamos justificar algo simplesmente pela cultura. Não é preciso uma "verdade transcendental", se é que entendi o que você quis dizer com isso. Nós estamos falando de aparência quando temos uma opinião, algo sem valor de verdade. Já o conhecimento tem necessariamente um valor de verdade, por isso é corrigível. Uma opinião é incorrigível porque não pode estar errada, independente do que se revele posteriormente sobre uma coisa. Quer dizer que podemos ter mais ou menos certeza sobre o que uma coisa é, mas o que ela parece é sempre óbvio e particular. Essa é a distinção para mim.

Hoje em dia as pessoas defendem, sem perceber, que as coisas são exatamente o que elas parecem, ou seja, as coisas são óbvias. Você não tem que pensar na cadeira na qual você está sentado, porque o importante é o aspecto pragmático. Isso, de certa forma, é uma consequência de um modo de vida que segue um ritmo acelerado, e que não permite que você fique muito tempo pensando sobre o que acontece.

Isso está relacionado com o fato de que esta cultura valoriza tanto certos jogos e não outros. O importante é entender o que está por trás das mudanças, e não somente como as coisas estão mudando. Quando eu falo de virtualidade estou falando de algo que tem ganhado muito espaço na nossa cultura recentemente, e por isso estou falando de uma mudança, de algo que não pode ser naturalizado e simplesmente aceito como se fosse inevitável.

Henrique Magnani disse...

Eu acho que nós temos e devemos que fazer uma auto-crítica justamente porque somos limitados culturalmente. Mas estou falando de culturas públicas, duradouras, coletivas. Acho que o grande erro de alguns pós-modernos é justamente focar no indivíduo, quando estamos falando de relações sociais com efeitos reais.
No fundo, acho que o limite da nossa diferença em relação a essa questão é bem tênue, se é que entendi bem (e agora acho que entendi bem melhor) nossa distinção pelo assunto.

Janos disse...

Parece que você está pensando numa oposição entre algo "público, duradouro, coletivo" e algo individual. Mas vivemos numa sociedade individualizada. só podemos falar com indivíduos. Enfim, eu e você não podemos fazer o que só a sociedade como um todo pode. Focar no individuo, neste sentido, só faz sentido no contexto das relações sociais. É diferente uma abordagem individualista, esta sim é pós-moderna.

Henrique Magnani disse...

Quando eu falei da posição pós-moderna, não falei que era a sua. Ao contrário, sei que você é crítico a ela. ;)
O que estava tentando mostra é que, para mim, o pós-moderno, que estimula o individualismo e o relativismo cultural que você critica pode se diferenciar e se distanciar do pós-estrutural, linha que, ao meu ver, seguem caras como Foulcault ou Bhabha. Esses falam do "individual" como algo sempre público e relacional. Bem sabemos que o "individualismo", por exemplo, não é "individual", se é que eu consigo me fazer claro.
Por isso falei de ser possível conceber a cultura/linguagem como base da interpertação. E nesse sentido, acredito que mesmo uma pretensa metalinguagem é cultural e recortada. No campo das artes (e acho que é aplicável a todos os campos) Gombrich diria: “Não há naturalismo neutral. O artista [plástico], não menos do que o escritor, precisa de um vocabulário
antes de poder aventurar-se numa ‘cópia’ da realidade”.
Eu não estou pensando em uma oposição entre sujeito e coletivo, mas naquilo que o Bakhtin chama de dialogismo. O sujeito é necessariamente particular e público. Cada enunciado é necessariamente criativo e repetitivo.
Por isso eu disse que estamos muito mais próximos teoricamente do que me pareceu no começo.
Mas eu acho que a gente está levando para minúcias técnicas essa discussão... rs

Janos disse...

Entendi. Desculpe por ficar desconfiado. Podemos entrar nas minúcias em outra ocasião. De qualquer forma, não tenho como discutir linguística com você, e o pouco que eu sei sobre filosofia da linguagem só me deixa mais confuso ainda.

Henrique Magnani disse...

O inverso é verdadeiro... o pouco que conheço de filosofia me confunde. Por isso, acho que essas minúcias e diferenças vão ficar claras com o tempo para ambos, o que não é um problema, mas uma condição esperada de quando falamos de lugares diferentes.... ;)