07/05/2010

Beneath a Steel Sky

Desenvolvedor: Revolution Software
Plataformas: DOS e Amiga
Data de lançamento:1994
Gênero: Adventure
Duração: Algumas horas



A metáfora do robô

Este é o último dos jogos "comerciais" que eu joguei até o final e sobre o qual ainda não tinha escrito. Beneath a steel sky é ambientado num cenário criado por Dave Gibbons, autor de Watchmen, e inspirado por obras como 1984, Admirável mundo novo, Metropolis, Blade Runner, Mad Max, Eu robô e Neuromancer. De fato, a introdução é uma história em quadrinhos criada por Dave Gibbons.

O jogo conta a história de Robert Foster, único sobrevivente de um desastre aéreo que matou sua mãe, criado numa comunidade aborígene da Austrália, num futuro onde o planeta foi devastado pela civilização. De alguma forma, Robert consegue construir um robô usando apenas as peças que ele encontra no lixo. A história começa quando uma milícia é enviada para capturá-lo. Robert se entrega para salvar a vida do líder da tribo, mas para seu desespero, toda sua comunidade é dizimada sem piedade logo depois.

Uma interferência ocorre quando o helicóptero que está levando Robert cai, e ele consegue escapar, vagando pela cidade de Union City, numa sociedade dominada por um totalitarismo tecnocrático. Lá, Robert descobre que seu verdadeiro nome é Overmann, que sua mãe foi morta por uma entidade artificial chamada LINC, a mesma que planejou sua captura. LINC foi criada pelo pai de Robert, mas adquiriu autonomia e tomou controle da cidade. O jogo explora muito bem os elementos de cyberpunk, incluindo a realidade virtual.

Robert representa uma pessoa que perdeu todas as suas referências, tentando sobreviver numa cidade hostil, “sob um céu de aço”. Ao tentar descobrir qual seria o interesse de LINC nele, o personagem acaba reencontrando seu próprio pai. LINC necessitava de um cérebro humano para funcionar corretamente, o pai de Robert se plugou à máquina voluntariamente, mas ela tomou conta dele como um parasita mental, obrigando-o a matar sua esposa. Mas agora que seu corpo humano está definhando, LINC calculou que o melhor substituto seria o seu filho. É uma maldição tecnológica hereditária, da qual o pai de Robert tentou livrar seu filho, provocando a pane no helicóptero que o levava.

O jogo toca em vários assuntos interessantes. Um deles é a inteligência artificial. Joey, o robô programado por Robert, é um verdadeiro companheiro; engraçado e cheio de emoções humanas, mesmo estando num corpo que o desagrada. Mas quando o chip com sua personalidade é inserido no corpo de um andróide feito com engenharia genética, ele se torna extremamente reservado, quase sem emoção. Exatamente quando ele conquista um corpo humano, o corpo mais avançado que poderia querer, ele se torna mais parecido com um robô.

Provavelmente, se trata de uma metáfora para a "emancipação". Quando adquire o corpo de andróide, Joey muda seu próprio nome para Ken, um nome escolhido por ele mesmo, num símbolo claro de independência em relação ao seu criador. No entanto, Ken não trai Robert como fez LINC. A criação de Robert supera a criação do seu pai, restabelecendo a ordem em Union City e acabando com a tirania de LINC.

Robert perdeu tudo que ele amava. Seu reencontro com o pai serviu apenas para gerar culpa, já que seu próprio pai tentou matá-lo. Mas Robert não é tão diferente do pai. É graças ao talento para robótica que herdou do pai que ele foi capaz de programar Joey. Quanto a Robert, ele decide retornar ao lugar onde foi criado, provavelmente para tentar reconstruir sua comunidade arrasada.

Recentemente, têm se tornado comum usar robôs para se falar de sentimentos humanos. Wall-e e o personagem de Machinarium são bons exemplos. Mas o que significa colocar sentimentos humanos tão profundos em faces robóticas? Seria porque o mundo humano tem se tornado tão frio e mecânico que encontrar sentimento nele seja considerado tão surpreendente quanto encontrar sentimento numa máquina? Que aquele que ainda tem sentimentos se sinta como uma peça defeituosa num grande sistema controlado por uma máquina que saiu fora de controle? A esse respeito, o filósofo anarquista John Zerzan diz o seguinte:

"A máquina tecnológico-industrial já está governando o mundo. Um mundo onde seres humanos individuais são apenas insignificantes engrenagens com quase nenhuma autonomia. Nem um único humano, nem o mais poderoso político, nem o mais poderoso empresário, tem o poder de reinar no sistema. Eles necessariamente têm que seguir a lógica inexorável do que foi desencadeado".

Temos assim uma visão de mundo onde a autonomia para escapar da programação é dada às máquinas, e não aos homens. Como se estivéssemos esperando que as máquinas tomem consciência, e o sistema, por si só, deixe de nos escravizar. É como se o processo não dependesse mais de nós, que impotentes diante do “sistema”, nos convertemos de usuários para ferramentas. Por outro lado, a esperança de reverter o processo, de voltar a estar no controle, de usar a tecnologia para o “bem”, parece cada vez mais irrealista. Nós nunca tivemos o controle, e todo esse aparato de fato nunca serviu para nosso bem, pois não houve uma era dourada da tecnologia, e ninguém pode presumir com sensatez que um dia haverá.

Neste contexto, a escolha de Robert é outra: voltar para o deserto, às margens da sociedade, para onde a cidade deposita seus dejetos. A sabotagem contra a máquina está simbolizada com o ato de Robert de parar uma fábrica de robôs jogando uma chave inglesa entre duas engrenagens. Beneath a steel sky pode ser considerado um clássico, uma saga do herói estilo cyberpunk.

1 comentários:

Victor disse...

Incrível! Eu fico impressionado com o potencial desses jogos antigos! Ótimo artigo!