30/04/2010

Infinite Regress


Desenvolvedor: Frugal Games
Plataformas: Web e Windows
Data de lançamento: 2010
Gênero: Game art
Duração: Alguns minutos




Intoxicação informacional

Infinite Regress (Regresso infinito) é um jogo sobre cada um de nós, isso é, o jogador controla uma versão metafórica de um consumidor de produtos culturais que, nos limites da sua liberdade de escolha, procura consumir produtos "bons" ao invés de produtos "ruins". No caso, os produtos bons são coisas como um post de blog útil, um belo CD de música, um filme com um bom conteúdo ou um livro extraordinário, etc... Já os produtos ruins são a maioria das coisas que se encontram por aí. Elas se movem velozmente em sua direção, impulsionadas pelos "críticos", pessoas que recomendam o que você deve consumir. Você precisa de atenção para se desviar dessas coisas, ainda assim será inevitável assistir um péssimo filme, ou ler um livro horrível, o qual você simplesmente não conseguiu evitar de consumir. O fato de que os críticos são robôs talvez signifique que eles agem mecanicamente nessa seleção de produtos culturais.

A questão que o autor coloca com o título é a seguinte: "Como eu posso saber se uma informação é boa, digna do meu tempo?". Se eu dependo de outros para saber no que vale a pena investir parte do meu tempo, e estes por sua vez dependem da opinião de outros, que dependem da opinião de outros, então há um regresso infinito até o ponto onde, teoricamente, se origina aquela opinião que diz se tal produto é bom ou ruim. O autor oferece um critério que foge da opinião dos críticos: o que é bom expande meu conhecimento, facilita meu discernimento, enquanto o que é ruim diminui meu horizonte, fazendo com que eu me torne cada vez mais um consumidor passivo. Isso é representado no jogo como o aumento ou diminuição do espaço de jogo. Quanto menor o espaço de jogo, mas difícil evitar de consumir produtos idiotizantes.

Outra questão colocada pelo autor é que o vício pela busca de informações úteis pode levar ao vício em relação às ferramentas de procura e de compartilhamento de informação. Elas se tornam "meta-produtos", cada vez mais indispensáveis, dos quais estamos cada vez mais dependentes. Assim, nossa atenção pode estar voltada muito mais para a habilidade de selecionar e separar informações úteis em meio ao oceano caótico de informações inúteis ou irrelevantes, do que às próprias informações que estamos recebendo. Isto chega a um grau em que realmente não importa o conteúdo do que estamos apreendendo, mas somente que se mantenha um fluxo constante de "expansão do conhecimento". Em última instância, esse acúmulo de informações acaba tornando mesmo aquelas informações que são úteis em informações irrelevantes, que provavelmente só servem para que se possa acumular mais informação. Ou, quem sabe, servem para impressionar os outros, com menos conhecimento?

A maioria dos gamers, acostumados com "mais do mesmo" ou "blockbusters", provavelmente não irá gostar desse jogo, no entanto acredito que ele diz algo importante sobre nossos hábitos modernos de consumo de informação, inclusive de consumo de jogos.

Este é o primeiro trabalho de um criador de jogos que ainda não se apresentou formalmente (não há informação sobre o nome dele no site), mas que já começou muito bem, e isso usando poucos recursos e uma ferramenta gratuita.

3 comentários:

Victor disse...

Muito criativo o jogo! Também muito boa a abordagem.

Henrique Magnani disse...

não gostei muito do jogo, embora tenha gostado do texto.

Quem é que determina o que nos faz "expandir" e "encolher" nossas opções? Apenas produtos já fabricados vindo de fora? Então, qual a diferença? Temos, realmente, alguma escolha?

Acho que esse jogo oculta uma etapa importante da cultura, que é a que justamente permite certas avaliações sobre o que é "culturalmente válido" e o que que "alienante".

AbraçO!

Janos disse...

Henrique,

Você tem razão no seu comentário, o jogo realmente falhou nisso, foi precisamente o mesmo que eu pensei. Mas é interessante fazer um paralelo deste com o Free Culture.

Abraço

Janos