23/02/2010

War and Peace

Desenvolvedor: Stephane Bura
Plataformas: Windows
Data de lançamento: 2010
Gênero: Estratégia
Duração: Cerca de 5 minutos

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Qual a diferença entre guerra e paz na civilização?

Este jogo extremamente simples resume o mecanismo de jogo do aclamado Civilization e o transforma num jogo de "um só botão". Como isso funciona? Significa que a única interação que você tem neste jogo é escolher entre o modo de "Guerra" e o modo de "Paz", apertando qualquer botão do teclado ou do mouse. Isso determina o comportamento da sua civilização, que tem apenas dois tipos de unidades: soldados e colonos, e três atributos: Crescimento, Poder e Pesquisa. No modo de guerra, soldados atacam, e no modo de paz eles exploram o terreno. Apesar de ser tão interativo quanto um interruptor, o jogo é muito interessante e apresenta 3 tipos de vitórias diferentes, tirados de Civilization:

Conquista - Conquistar política ou militarmente todas as cidades do mundo
Dominação - Ter pelo menos 75% do mundo sob sua influência cultural
Colonização Espacial - Ser o primeiro a completar a tecnologia de Colonização Espacial

O mais interessante é que diferentes tecnologias são pesquisadas nos dois modos, o que irá determinar vantagens em poder bélico, crescimento econômico ou desenvolvimento científico. Mas, o que me chamou a atenção é que as mesmas tecnologias de morte são pesquisadas no modo de paz. Aparentemente, este jogo revela a visão de mundo de Sid Meier, autor de Civilization, que é provavelmente o criador de jogos mais bem sucedido do mundo.

Na verdade, criticar as idéias pressupostas em Civilization foi uma das coisas que me atraiu para a crítica aos jogos. Foi pensando em fazer um jogo que levasse em conta uma crítica à civilização do acúmulo que eu comecei a programar jogos. Civilization toma o avanço de nossa cultura como um processo padrão para todas as sociedades humanas. Isso fica claro em War and Peace: o que realmente importa para uma cultura de acúmulo é o poder, seja conquistado por meio da violência ou da diplomacia. As imagens escolhidas para a vitória diplomática em Civilization, como pode ser visto nesse vídeo, demonstram claramente os ideais humanistas de emancipação humana por meio da ciência, a celebração das grandes obras humanas, a globalização, o ecumenismo e a democracia como ideais de liberdade. Podemos dizer que para ser bem sucedido em Civilization é preciso ser totalitarista. De acordo com Hannah Arendt, umas das mais brilhantes pensadoras da filosofia política, o totalitarismo é o resultado da perda da autoridade. É esse o papel do jogador em Civilization, assim como em Age of empires e outros jogos similares: Ele não representa uma autoridade, mas sim um poder autoritário.

E não que não seja possível fazer um jogo diferente. Dwarf Fortress é um exemplo disso, sendo que o jogador deve dar ordens para um grupo de anões e construir uma fortaleza, mas não tem poder absoluto sobre eles. Outro exemplo é o The Lost Tribe, em que o jogador não apenas não tem poder absoluto, mesmo sendo o líder da tribo, como deve manter sua autoridade por meio de decisões ponderadas. Devo escrever mais sobre esses jogos depois. A questão é que aparentemente Civilization não seria tão divertido se não envolvesse a busca pelo poder, pela expansão e pelo controle. De qualquer forma, o jogador age mais como o Espírito hegeliano do que como uma liderança humana.

Marcos Reis, um amigo sociólogo e irmão na fé, escreveu recentemente sobre sua experiência com Age of Empires: "Este jogo reforça a idéia de que a civilização ocidental só pode desenvolver-se calcada na violência e toda a ciência e tecnologia desenvolvidas nela fundamentam-se em técnicas para a guerra."

Se isto é verdade para Age of Empires, Civilization torna a coisa ainda pior, pois, ainda segundo o Marcos, ele "comunica um ideal de destradicionalização por meio desta premissa de diplomacia e ecumenismo que se fundamentam na perda da autoridade e na eleição do indivíduo e suas pulsões como legitimador da tomada de decisões e do estar no mundo..."

Hannah Arendt diz em As Origens do Totalitarismo: "As soluções totalitárias podem muito bem sobreviver à queda dos regimes totalitários sob a forma de forte tentação que surgirá sempre que pareça impossível aliviar a miséria política, social ou econômica de um modo digno do homem" (ARENDT, 1990).

War and Peace me convidou a pensar na seguinte questão: Afinal, qual a diferença entre guerra e paz, se no fundo estamos caminhando para o mesmo objetivo civilizatório?

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo: anti-semitismo, imperialismo, totalitarismo. Editora Companhia das Letras, 1990. Pág. 511

7 comentários:

Henrique Magnani disse...

Em minha dissertação de mestrado, era para existir um quinto capítulo, que não foi desenvolvido por falta de tempo. Ele discutiria justamente o Civilization, pensando nas possibilidades de um jogo feito “para entretenimento” ser pensado educacionalmente ou para gerar debates/ reflexões. Essa análise levaria em conta três níveis: a escolha do tema; os discursos presentes sobre o tema; a presença ou não de múltiplas vozes/discursos sobre o assunto.
Minha motivação foi a “censura” a que fui submetido, na minha qualificação, por estar “procurando criar/pensar em algo que já existia”. Quando eu estava querendo investigar o que pode tornar um jogo interessante para a educação e para um debate, a professora que fazia parte da banca deu o Civilization como exemplo, mostrando que ele apresentava diversas correntes políticas, culturas diversas com particularidades, religiões, conflitos, etc. E que eu queria descobrir o ovo de Colombo.
Desde então, fiquei pensando na “armadilha” criada por jogos pretensamente abertos como o Civilization. É fato que há uma “multiplicidade” em Civilization que supera a de jogos em que há um vilão e um herói. Por outro lado, essa multiplicidade está submissa a uma unicidade anterior que é o discurso da dominação (ideológica, cultural, bélica, territorial, tecnológica). Ou seja, todas as civilizações jogáveis podem ter origens e habilidades diferentes, mas se afunilam em seu fim. O que muda é o instrumento utilizado para isso: armas? Música? Maravilhas? Indústrias? E existem os não jogáveis bárbaros, que vivem atacando os povos civilizados, sem estratégia nem razão. E, obviamente, não há diplomacia possível com eles.
Assim, “guerra” e “paz”, como você bem aponta, não fazem diferença. Não são “estados de espírito” diferentes. São, ambos, estratégias diferentes para um mesmo fim: a dominação.
Obviamente, o Civilization é um jogo divertido, muito bem elaborado, com possibilidades de exploração estratégicas infinitas. Para quem gosta desse tipo de desafio em um jogo (feito eu), é um prato cheio e dificilmente cansa. Mas daí para ser, sei lá, implementado em escolas, por exemplo, para “mostrar” como a história é e como são as civilizações, há um abismo. Ao meu ver, o grau de reflexividade e debate que temos com outros produtos culturais – livros, filmes, etc – ainda está muito além do grau que nos permitimos ter com os jogos. É só dizer (segundo a lente do Sid Meier) que existiu Comunismo, Fordismo, Feudalismo e Capitalismo e nos damos por satisfeitos.

Janos disse...

Henrique,

Minha experiência como professor de História me ajudou a perceber isso. Muito obrigado pelo seu comentário. Acho que ainda caímos nessa armadilha exatamente porque ainda não estamos cobrando dos jogos o mesmo que cobramos de outros meios. Se o jogo contém algum nome mais complicado, já é considerado "educativo". O critério é baixo porque qualquer coisa que tenha um mínimo de inteligência já supera a maior parte das produções. A questão é que o mínimo nem sempre é o bastante.

Salvador disse...

A autoridade ausente que guia o desenvolvimento da sociedade ocidental é a de "Deus". De uma perspectiva cristã é o diablo, o rebelde. Convenientemente ignora-se qualquer outra perspectiva; aqueles que não são por nós, estão contra nós. E assim segue a nossa civilização. Se ainda fosse um império, seria o da hipocrisia, mas somos democratas, evoluímos bastante.

Janos disse...

Realmente, a autoridade ausente de Deus guia a sociedade ocidental, isto quer dizer, assim como a autoridade ausente de um pai guia a criança para caminhos contrários aos desejos do pai. O que se vê na história é resultado da ausência, e não a presença, do reconhecimento da autoridade de Deus. De uma perspectiva cristã, a ausência de Deus é terreno fértil para presença de outra força, contrária a Ele. De uma perspectiva contrária, seria Deus o culpado por tudo, como se o mundo tivesse obedecido a Ele, não a seus próprios interesses.

Não devemos ignorar as outras perspectivas. Mas sem uma distinção, elas se neutralizam, perdem seu valor de verdade.

É realmente uma democracia da hipocrisia. "Pois quem não é contra nós é por nós." Marcos 9.40

Salvador disse...

A hipocrizia está em não reconhecer que é justamente essa distinção exclusivamente primária entre crente e não-crente, feita pelos cristãos (e anti-cristãos também) que legitima a imposição do cristianismo. Afinal, como o pagão poderia ser responsabilizado por este mal que se expande exponencialmente (coincidentemente, como a religião) sem reconhecer a culpa pelo desaparecimento daquele que antes o regia? Irônico como (coincidentemente também) esse reconhecimento determina a sua submissão à esta nova cultura e a mutilação da sua própria.

Janos disse...

Espere aí Salvador, você veio aqui para falar mal do cristianismo? Eu pensei que você queria comentar algo sobre a democracia. Se você tem algum problema com o cristianismo, aqui não é o local apropriado para expressar isso.

Salvador disse...

Como você já expressou reservadamente a sua insatisfação com o meu comentário eu assumo que essa resposta não foi diretamente para mim.

Não é vedado que o cristianismo na forma em que se configurou possui um caráter político. Não foi minha intenção criticar a religião (apesar de não conseguir perceber o problema nisso; qualquer forma válida de pensamento deveria ser passiva à crítica) e sim o caráter hipócrita da forma como ela era difundida e praticada.
Isso não é uma expressão de insatisfação, é o relato de um fato (veja bem, não é sequer uma opinião).

Ademais eu já lhe informei, também reservadamente, da minha motivação. Se não quiser que eu escreva aqui, não me responda aqui que eu não vou precisar sequer abrir essa página.